Antes de uma notícia chegar até você, ela já passou por diversos estágios e pessoas. A informação que você recebe da TV, rádio, jornal ou internet passa por várias camadas de subjetividade e interesses até ser publicada e lida por você. Fechar olhos e ouvidos para todos os meios de comunicação é a melhor saída para o investidor? Não. O ideal é ter uma postura menos passiva diante do que se vê, ouve e lê.
E para isso, é fundamental aprender a interpretar e utilizar as informações para considerá-las ao tomar decisões sobre seus investimentos. Esse é um dos assuntos tratados por Flávio Lemos em suas palestras sobre o mercado de capitais. Para o especialista, investir baseado apenas em notícias é um erro grave. Flávio, que é o idealizador da Expo Trader Brasil e coordenador da Trader Brasil Escola de Investidores, recomenda que as notícias sejam mais um dos pontos a considerar antes de investir. Engenheiro civil com MBA em finanças e mercado de capitais, Flávio tem certificado Series 7, 24 e 4 da NASD (National Association of Dealers dos EUA ), Series 3 da NFA (National Futures Association) e Ancor. Além disso, é instrutor master de trading graduado pela Trading Academy da Califórnia, EUA.
A InvestMais conversou com Flávio Lemos sobre os cuidados necessários para os investidores quando considerarem as notícias em seus investimentos. Confira todas as sugestões de Flávio e lembre-se de sempre questionar o que você ouve, lê ou vê. Aliás, não só em relação aos seus investimentos, mas a qualquer informação que receber. E faça isso já, ao ler essa entrevista. Boa leitura!
O tema “uso de notícias” é recorrente em minhas palestras e cursos no sentido de alertar o investidor para que as notícias não tenham uma influência decisiva em suas operações. Quando elas chegam até o investidor, já são velhas. Na verdade, não ter notícia alguma é melhor que notícia errada ou de fonte ruim, notícia já descontada, boato, interpretação errada de uma notícia ou opinião de guru/analista/banco. É claro que existem publicações sérias e bem-intencionadas. Matérias sobre avaliação de investimentos, novas técnicas, softwares e ferramentas serão sempre bem-vindas. Mas na era da internet, o investidor precisa ter muito cuidado para não ser manipulado.
Diversos sites, fóruns e blogs espalhados pela internet tentam manipular o pequeno investidor, levando-o a comprar empresas concordatárias ou que custam centavos exatamente pela facilidade e inocência dele. Minha sugestão é que o investidor dê preferência sempre para as instituições de maior liquidez e capitalização. Além disso, é muito importante fazer cursos sobre o mercado de capitais para poder usar sua própria opinião depois desse aprendizado. Ser autodidata no mercado financeiro pode custar muito caro. Duas das minhas frases preferidas são: “Tudo que é de graça vale exatamente quanto custa” e “Se você quiser ser seu professor em tudo, na verdade, será seu melhor aluno”. A manipulação acontece o tempo todo, seja em mídia nacional ou estrangeira. A educação financeira é a única forma de detectar se a notícia é realmente relevante. Não existe milagre.
O noticiário ideal é aquele geral, que mostra uma tendência econômica e financeira que demora para mudar, por exemplo: em fevereiro deste ano, foi publicado o seguinte: “Venda de carro zero bate novo recorde”. Essa informação impacta positivamente a indústria siderúrgica por um determinado tempo. Outro exemplo, em julho: “Aprovada a lei de tolerância zero do álcool na direção”. Essa impacta negativamente a indústria de bebidas alcoólicas. Ambas as notícias geram impactos a longo prazo. Já as factuais atrapalham mais que ajudam, por exemplo: no dia oito de novembro de 2007, numa quinta-feira, o Jornal Nacional da Rede Globo, que começa às 20h15, divulgou a descoberta do poço gigante de Tupi. Na abertura dos negócios do dia seguinte, a ação da Petrobras teve seu primeiro negócio com alta de 15%. Já no fechamento, a ação caiu e fechou em alta de apenas 1%. Dessa forma, quem comprou na abertura perdeu quase 14% num dia. E, o que é pior, esse preço da abertura só foi ultrapassado no dia nove de maio de 2008.
A decisão sobre compra ou venda de uma ação deve ser feita após uma extensa análise que leva em consideração o cenário macroeconômico e setorial, o balanço da empresa e de suas concorrentes, a tendência e a velocidade de aumento/descida dos juros e da inflação no Brasil e no mundo. Vale lembrar que a economia utiliza dados passados e o mercado trabalha com projeções futuras, ou seja, é a expectativa dele que determina o preço das ações.
Comprar ou vender uma ação baseado somente em notícias e não verificar as informações com fontes respeitadas como a Bloomberg e a Reuters também são um erro. Não existe receita de bolo, e sim técnica e muito trabalho. Comprar por impulso é inerente ao ser humano. Joalherias não têm várias filiais dentro de um mesmo shopping por acaso. A compra da jóia é típica de um desejo, de um impulso. Mas agir por impulso no mercado financeiro pode custar muito caro.
Sim, vamos lá. Primeiro exemplo, manchete em 01/5/2006: “Evo Morales anuncia nacionalização do gás e coloca tropas na Petrobras, na Bolívia”; manchete em 02/5/2006: “Petrobras sobe 3% depois da nacionalização”. A notícia parecia ruim. No entanto, na época, o que importava para o mercado era a expectativa dos preços do petróleo, que batiam seguidos recordes e impactavam diretamente as ações da Petrobras. A operação da Bolívia era ínfima para os resultados da Petrobras, logo essa notícia não impactou negativamente o mercado. Segundo exemplo, manchete em 12/06/2008: “Petrobras anuncia descoberta de águas profundas em Guará”; manchete em 30/06/2008: “Petrobras cai mais de 10% em junho, mesmo com várias descobertas de óleo e gás”. A notícia parecia ótima, porém os poços de petróleo descobertos eram muito profundos. Ainda não há tecnologia para serem explorados, e isso vai requerer tempo e investimentos altos. Além disso, agora estamos com perspectivas de aumentos de juros para segurar a inflação – o que pode diminuir o consumo, que no fim afeta a demanda por petróleo. Assim, quem se empolgou com a notícia não fez bons negócios.
É importante que o investidor busque respostas para as seguintes perguntas: mudou algo no fundamento macroeconômico (renda, desemprego, PIB, inflação, juros, balança comercial)? Mudou algo em relação ao setor e seus concorrentes? A expectativa do mercado para as ações da companhia mudou? Vale a pena entrar ainda? Se subiu, será que já não subiu muito? Se caiu, por quê? O que estou vendo que ninguém está sabendo ainda? E lembre-se de que para saber quanto quer ganhar, você precisa saber quanto pode perder.
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